“ATENDIMENTO E SUPERVISAO EM TERAPIA DE CASAL E FAMILIA”SANDRA SALOMAO Centro de Aperfeiçoamento e Desenvolvimento em
Gestalt-Terapia e Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro
Pubblicato sulla rivista
"Informazione Psicoterapia Counselling Fenomenologia" n°
1,
A Gestalt-terapia surgiu junto com o pós-modernismo, no bojo das psicoterapias alternativas. Fritz Perls apresenta a nova abordagem através de um estilo pós-moderno típico de demonstrações públicas performáticas no melhor estilo espetáculo e com os resultados eficientes de uma psicoterapia bombástica, mais “rápida” do que a psicanálise clássica, aparentemente plena de técnicas que por si só seriam eficientes para a solução de problemas. Aparentemente o formato da nova terapia é apropriado ao ritmo acelerado da contemporaneidade, ao imediatismo de um aqui agora que rompe com a história. Isso faz com que ela apareça e seja facilmente assimilada em seu viés mais aparente. Entramos na era da tecnociência, da massificação e hiper produção das informações. Do acúmulo de informações não processadas criticamente. O prazer está associado ao consumo de bens e serviços. O culto à imagem supera o valor do conteúdo. Equipamentos de última geração, pesquisas avançadas e clonagem convivem com a fome, a violência e o terrorismo e a destruição. O pós-modernismo parece ser divertido, mas realiza a síntese do nada, do vazio infértil, da ausência de uma interiorização e da busca de sentido para a vida. O sujeito parece inexistir, pois o Aparecer-é Poder impera autoritariamente. A aparência sem essência favorece o aparecimento dos hormônios, das próteses de silicone. Não há tempo para devaneios, de exercer-se humano. Os objetos da paixão tornam-se objetos de produção e não de relação. Expressar amor e afeto é coisa do passado ou romantismo superado. Certamente é muito complexa a existência da Gestalt-terapia, bem como de qualquer outra psicoterapia nestes tempos pós–modernos, e sua proposta apesar de mais coerente com os tempos atuais, caminha na contra mão das sociedades avançadas, propondo a era da conscientização e do contato, para uma sociedade em que as pessoas vivem como se estivem em bolhas. A Gestalt-terapia, na verdade, não é tão pós-moderna quanto parece. Sua marca existencialista e os fundamentos filosófico e metodológico fenomenológico fornece um instrumento de leitura e intervenção que trazem as influências das idéias modernas. O aqui e agora da Gestalt não exclui a história. Na verdade denuncia sua atualidade no presente . Dialética pura. Um dos aspectos mais admiráveis da Gestalt-terapia refere-se a capacidade desta abordagem de manter-se com um sentido de atualidade. Desde que surgiu, há 50 anos, a Gestalt-terapia vem sendo capaz de fornecer um texto conceitual e uma atitude diante do homem, que permitem tanto uma compreensão dos impasses e processos humanos mais inesperados quanto à produção de um método e de instrumentos de intervenção que permanecem adequados às transformações econômicas, políticas, sociais e ideológicas que estiveram em cena durante a segunda metade do século XX. Sendo assim, gostaria de trazer uma vertente que é a inequívoca vocação teórica e metodológica da Gestalt-terapia, para a psicoterapia com famílias. A família está no epicentro do bombardeio pós-moderno. É como se estivesse sentada no vulcão. Sofre com as mudanças aceleradas e não tem tempo de assimilar as novas reorganizações. As novas Gestalten que convivem com modelos mais convencionais desafiam psicoterapeutas, educadores e pensadores. Casamentos e recasamentos, uniões efêmeras, divórcios numerosos e prematuros, vão formando um complexo jogo de relações enquanto envolvem contradições com os modelos de relacionamento convencional. Novos mitos e velhos mitos. Quando a Gestalt-terapia surge ela já era orientada para ser utilizada em indivíduos em relação, e mais tarde para indivíduos em grupos e mais recentemente para famílias e grandes comunidades. Esta abordagem apresentou como um de seus princípios básicos o conceito de self, concebido como processo e como resultado de uma relação com o mundo e com os outros. Fazer contato e estar aware são as condições para realizar um ajustamento criativo. Não existe mais o intra-psíquico como uma estrutura, uma vez que o homem funciona enquanto processo, percebido enquanto totalidade. Também não há mais verdades absolutas sobre saúde e doença. O que há são experiências singulares no processo de viver. O contexto comanda. O trabalho com o cliente é orientado para as relações presentes em sua vida, sua responsabilidade e para a qualidade de seu contato e comunicação. O que determina os procedimentos de trabalho terapêutico é o processo de relacionar-se com a experiência do que ocorre aqui e agora. todas as concepções da Gestalt-terapia definem o funcionamento do homem na sua rede de relações com o mundo. Inevitavelmente, uma pessoa corre o risco de ser apreendida do ponto de vista terapêutico mais restritamente com restrições quando percebida fora de sua rede de relacionamentos. Abordá-la fora do seu momento e estilo de fazer contato restringe a apreensão da complexidade do seu existir. Se pensarmos que o homem está sempre em processo de auto-regulação organísmica com o mundo e procurando realizar ajustamentos criativos, o terapeuta assume que dialoga limitadamente com o cliente isolado de seu contexto, pois atua sobre narrativas e não processos relacionais. É óbvio que numa psicoterapia dialógica, podemos nos apropriar do estilo de relacionamento que se estabelece com o cliente e interagir a partir do seu próprio modelo de relação terapêutica. Por motivos variados a atuação terapêutica com indivíduos separados de suas famílias continua sendo exercida em todo o mundo e é uma prática que não pode ser encarada como totalmente destituída de validade, desde que de fato o diálogo terapêutico, se estabeleça com o cliente enquanto alguém que é percebido como imerso no jogo das relações familiares e sociais. O atendimento ao indivíduo com sua família ou da família em si parece mais adequado aos conceitos relacionais da Gestalt-terapia e à complexidade das sociedades atuais. Quando estamos começando um trabalho estamos pré-reflexivos, atentos à estética do relacionamento, a gestalt da família, ao seu jogo. Conteúdo e forma nos impressionam integradamente. Não ter a priori nos permite uma leitura e uma intervenção abrangente. Não há verdades fora daquela Gestalt e nós somos experts em trabalhar o entre. Atuar segundo a experiência presente e a fenomenologia de todos, terapeuta e família ou casal nos permite ultrapassar a era da tecnociência e utilizar a arte, a criatividade e o encontro como processo de transformação. A Gestalt-terapia usa a técnica e o encontro terapêuticoa serviço da relação e da reflexão. Nada menos pós-moderno. Esta abordagem tem muitas faces. E uma das minhas preferidas é o enfrentamento das contradições, dos buracos da personalidade e o enfrentamento das ambigüidades, dos dilemas, das dicotomias e angústias do homem. Se o que temos é caos, Perls o verdadeiro e falso pós-moderno diria: deixa o caos se organizar. Se há vazio, vamos fertilizá-lo. Se há uma gestalt rígida, vamos destruí-la. Para dar lugar a uma nova.Não pareça. Seja! Não engula, mastigue. Não seja um acúmulo de informações. Sinta. Suas falas já eram antídotos para o pós modernismo. Há cinqüenta anos atrás. No pós-moderno parece não haver propostas novas. Na Gestalt o crescimento é inerente ao novo. Boa Forma é um conceito libertador. A verdade que ele carrega é estética e então cada família terá a boa gestalt que lhe convier. Neste tempo de verdades tão incertas, uma abordagem que trabalhe com a incerteza, com o variável, com a compreensão a partir do aqui e agora parece ser um bom suporte para o que virá após a destruição das verdades ocidentais. Gostaria, então, de descrever esquematicamente com quais conceitos da Gestalt-terapia tenho sustentado conceitualmente e metodologicamente meu trabalho com famílias e nas supervisões a estudantes universitários e profissionais iniciantes. Conceitos básicos da Gestalt terapia com casais e famílias: Conceito de Gestalt – O todo e a parte, Holismo, teoria de campo, princípio da contemporaneidade.
Princípios gerais na psicoterapia de família e supervisão de terapeutas de família: Não há critérios de certo ou errado. As verdades circulam e são referentes à experiência de cada um. Todas os posicionamentos são verdadeiros. A família é percebida como um todo e o terapeuta pertence ao sistema. As experiências anteriores de atendimentos por parte da equipe podem ser relevantes ou não. A sabedoria do terapeuta e/ou supervisor é empregada de formas variadas. Sua função é o de ser responsável por criar condições para desenvolver a qualidade de atendimento, mais do que dizer o que deve ser feito, embora esta seja, por vezes, a fala adequada e necessária daquele que está investido de terapeuta/supervisor. A supervisão de família deve contar com uma equipe. Cada terapeuta é convidado a desenvolver a sua capacidade de atender àquela família assim como o supervisor de supervisionar todas as relações e funções presentes: terapeuta-família-supervisor, terapeuta -supervisor- demais membros da equipe, a família emocional do supervisor, do terapeuta e a família atendida, equipe – terapeuta – família instituição – equipe – família outras relações triangulares que aparecem Metodologia do atendimento: contato Centrar-se no processo da experiência presente. Perceber como a família se auto-regula Como a energia está distribuída no sistema Funções que cada membro exerce no sistema Vinculação das dificuldades com o que está cristalizado e com o que está inacabado Observar o potencial de saúde do casal ou da família. Indicar isto para a família. O terapeuta participa do processo da família de forma oscilante: em alguns momentos guia, em outros é guiado e em outros fica fora do sistema, assistindo ao fluxo da experiência da família; Facilita o contato entre as pessoas da família com intervenções nas funções de contato e nas fronteiras do self; Utiliza o experimento em busca da Boa Forma, auxiliando o sistema a se dar conta do seu processo de homeostase. Emprego das metáforas em atendimento de casal. O uso de técnicas de tipos variado provoca o ajustamento criativo e o aparecimento de uma auto-regulação mais adequada ao momento existencial da família. Uso do dever de casa. Evitar que o atendimento gire apenas em torno do conteúdo. Toda sessão precisa ser uma experiência de encontro e mobilização dos recursos da família. Mesmo com o emprego das técnicas a relação que está implicitamente presente é estar com e não fazer para. Para finalizar lembro como os tempos pós –modernos trouxeram mudanças nas estruturas e valores sagrados ao processo terapêutico. A noção de tempo, por exemplo. O sistema de informações em ritmo tão acelerado faz parecer que o processo de psicoterapia tem uma engrenagem muito lenta. A complexidade do mundo atual é que lidamos com muitas e diferentes narrativas. Políticas de saúde, sistemas de vida social, econômica, política e emocional muito distintos exigem um diálogo terapêutico que consiga decodificar, registrar e interagir com a complexidade da rede dos relacionamentos. Desta forma, é preciso lembrar que a Gestalt terapia e o atendimento à família e casais de fato pode ser feito em espaço bastante limitado de tempo, porém com bastante aprofundamento. O formato dinâmico e humanista da Gestalt-terapia a mantém compatível com todos os modelos que a humanidade criou e que continuará criando, enquanto houver água potável e vida sensível na terra.
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